LUGAR CATIVO

Quando chego todos já estão em volta da mesa
Ninguém acena mas o meu lugar está guardado
Alguém joga um par de dados e todos apostam
Mas eu já perdi antes mesmo de saber o número

Estive por muito tempo nessa cidade
Talvez seja a hora de ir embora

Mas a garota ao meu lado diz que tem a chave
Não falo nada mas duvido de tudo que ela diz
A criança no lado oposto percebe e dá risada
E todos duvidam que eu esteja sorrindo também

Estive apenas blefando pela cidade
Talvez seja a hora de ir embora

E o cuspidor de fogo rouba um beijo da vidente
Podemos dizer agora que a vida é imprevisível?
Ou será que voltaremos a seguir o velho roteiro?
Prefiro improvisar silêncios em minha resposta

Estive sempre me perdendo pela cidade
Talvez seja a hora de ir embora

Mas todos dizem que o meu lugar ficará guardado
E gentilmente exigem que eu fique agradecido
Só que agora é tarde para aprender a ser polido
Então me levanto e digo com um sorriso sincero:

Estive em muitos sonhos nessa cidade
Certamente chegou a hora de ir embora

Adeus, meus amores
Em meu lugar não existe dúvida
Adeus, queridos mestres
Em meu lugar não existe certeza
Adeus, irmãos, amigos e inimigos
O meu lugar não existe

E agora só me resta acordar.

Anúncios

~ por jeronimooo em maio 16, 2012.

3 Respostas to “LUGAR CATIVO”

  1. E se quando vc abrir os olhos, ainda for vc e ainda for hj…
    Não te resta mais nada, meu caro amigo !
    Tome uma xícara de chá. Mas não se esqueça de nos convidar. Eu e Kali. Que já acordamos em tantos hj como esse.

    • Esta é a história fantástica de um homem que sonha com outro homem. O personagem não tem nome nem descrição física. Ele vai até as ruínas de um antigo templo, de forma circular, para sonhar conscientemente com um ser humano perfeito.

      O homem idealiza ao outro homem como um ser modelo. O instrui com os conhecimentos eruditos do mundo e desfruta da sua contemplação. Porém, num determinado momento o sonhador acorda e sua criação desaparece.

      Ele faz outra tentativa e quando alcança o seu propósito, este se dissipa novamente. Sofre enormemente com o que ocorreu e em meio a esse sofrimento descobre que ele mesmo, o sonhador, não tem realidade. O sonhador também está sendo sonhado.

      Então, tanto o diabo cria o mundo como o mundo cria o diabo. E entre uma coisa e outra está o mistério. E o mistério é como o mar ou deserto: não pertence a ninguém.

      By Jorge Luis Borges in Las ruinas circulares

      Postado por Kaslu às 8:12 PM

      • Esse é o momento onde tomamos um chá, sentados à borda, e usamos o buraco negro de mesa, sentimos o vento gelado do redemoinho, olhamos olhos nos olhos e esperamos o momento certo pra trucar (mesmo sabendo que ao jogar a carta, ela desaparece)!!! E torcemos pra que o buraco nos engula, e nenhum sonhador nos encontre, porque a gente sempre soube que o sentido da vida é acabar. E fazemos um brinde a improbabilidade infinita.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: