CABARÉ IXTLAN

 

Apertei os passos
Desatei o nó do peito
Alcancei o espaço
Arregacei as mangas
Ajeitei a cartola
Abri o velho piano
E comecei a cantar:

“Sei que já é tarde
Mas não vou me preocupar
O seu copo inda tá cheio
Então deixa transbordar
E se o mundo está fechando
A gente vai pra outro bar
Só não quero nem saber
De pra casa retornar

Não quero nem saber
Já não tem como voltar
Se viver é se perder
Deixa o vento me levar.”

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~ por jeronimooo em abril 27, 2010.

6 Respostas to “CABARÉ IXTLAN”

  1. (…)

    – Nada sera o mesmo para mim de novo. – Eu disse suavemente.

    Esperanza balançou a cabeça:

    -Você irá retornar para o mundo, mas não para o seu mundo ou sua velha vida. – Ela disse, levantando-se do tapete com a abrupta maestria que as pessoas pequenas possuem. – E é extremamente excitante fazer algo sem saber porque estamos fazendo isso. – Ela falou voltando-se para olhar para mim.- E ainda mais excitante se posicionar para fazer algo sem saber qual será o resultado final.

    Eu não poderia discordar mais e declarei:

    – Eu preciso saber o que estou fazendo. Eu preciso saber no que estou me metendo.

    Ela suspirou e segurou as mãos num gesto cômico de reprovação:

    – Liberdade é terrivelmente assustadora – Ela falou duramente, e antes que eu tivesse a chance de responder, ela disse gentilmente – Liberdade requer atos espontâneos. Você não tem idéia do que é abandonar-se espontaneamente…

    – Tudo o que eu faço é espontâneo – Eu objetei.- Por que você acha que estou aqui? Você acha que eu deliberei muito se eu deveria vir ou não?

    Ela retornou para o tapete e ficou parada olhando para mim por um longo momento antes de dizer:

    – Claro que você não deliberou sobre isso. Mas seus atos de espontaneidade são devidos a falta de pensamento mais do que um ato de abandono. – Ela bateu o pé para me prevenir de interrompê-la de novo. – Um ato relamente espontâneo é um ato no qual você se abandona completamente, mas apenas depois de profunda deliberação. – ela continuou.

    – Um ato onde todos os prós e contras foram levados em consideração e diligentemente descartados. Você não espera nada, você não se arrepende de nada. Com atos dessa natureza, feiticeiros conjuram a liberdade.

    (texto retirado do blog Universo Líquido: http://universoliquido.blogspot.com/ )

  2. “Orientei-me. Achei que minha casa devia estar para leste, por isso comecei a caminhar naquela direção. Ainda era cedo. O encontro com o aliado não tinha durado muito tempo. Logo encontrei uma trilha e então vi um grupo de homens e mulheres vindo em minha direção. Eram índios. Achei que eram índios mazatecas. Rodearam-me e perguntaram para onde eu ia “Vou para Ixtlan”, disse eu. “Está perdido?” perguntou alguém. “Estou”, respondi. “Por quê?”, indagou o mesmo índio. “Porque Ixtlan não fica nessa direção. Ixtlan fica na direção oposta. Nós também vamos para lá”, disse outra pessoa. “Venha conosco!”, disseram todos. “Temos comida!”

    Dom Genaro parou de falar e olhou para mim como se estivesse esperando que eu fizesse uma pergunta.

    — E então, o que aconteceu? — perguntei. — Foi com eles?

    — Não fui, não — respondeu. — Porque eles não eram reais. Vi logo, no minuto em que chegaram perto de mim. Havia alguma coisa em suas vozes, em sua simpatia, que os denunciou, especialmente quando me convidaram para ir com eles. Por isso, eu fugi. Eles me chamaram e pediram que eu voltasse. Os chamados deles me tentavam, mas continuei fugindo.

    — Quem eram? — perguntei.

    — Gente — respondeu Dom Genaro, numa voz cortante. — Só que não eram reais.

    — Eram como aparições — explicou Dom Juan. — Como fantasmas.

    — Depois de caminhar um pouco — continuou Dom Genaro — fiquei mais confiante. Eu sabia que Ixtlan ficava na direção em que eu ia. E então vi dois homens descendo a trilha em minha direção. Eles também pareciam índios mazatecas. Tinham um burro carregado de lenha. Passaram por mim e murmuraram “Boa tarde. ” “Boa tarde!”, respondi, e segui andando. Eles não me deram atenção e continuaram seu caminho. Diminuí a marcha e me virei com naturalidade para olhar para eles. Estavam-se afastando, sem se preocupar comigo. Pareciam reais, Corri atrás deles e gritei: “Esperem! Esperem!” Eles seguraram o burro e ficaram um de cada lado do animal, como se estivessem protegendo sua carga. “Estou perdido nestas montanhas”, disse-lhes. “Para onde fica Ixtlan?” Eles apontaram na direção em que iam. “Você está muito longe”, falou um deles. “Fica do outro lado dessas montanhas. Vai levar uns quatro ou cinco dias para chegar lá. ” Neste momento, eles se viraram e continuaram a andar. Achei que eram índios de verdade e pedi que me deixassem ir com eles,

    “Caminhamos juntos um pouco e depois um deles, pegou seu farnel de comida e me ofereceu um pouco. Eu fiquei gelado. Havia alguma coisa terrivelmente estranha na maneira de ele me oferecer a comida. Meu corpo assustou-se, de modo que dei um salto para trás e comecei a fugir correndo. Ambos disseram que eu ia morrer nas montanhas se não fosse com eles e tentaram persuadir-me a acompanhá-los. Seus pedidos também eram muito tentadores, mas eu fugi deles a toda pressa.
    “Continuei a andar. Então, eu sabia que estava no caminho certo para Ixtlan e que aqueles fantasmas estavam querendo tentar-me para me afastar do caminho”.

    Encontrei mais oito deles; devem ter visto que meu propósito era inabalável. Ficavam ao lado da estrada e me olhavam com olhos suplicantes. A maioria nem dizia nada; mas as mulheres eram mais audaciosas e me pediam. Algumas chegaram a mostrar comida c outras coisas que diziam estar vendendo, como vendedoras inocentes de beira de estrada. Não parei, nem olhei para eles.

    De tardinha, cheguei a um vale que eu achei que conhecia. Por algum motivo, parecia familiar. Achei que já tinha estado ali, mas, se fosse assim, eu estava realmente ao sul de Ixtlan. Comecei a procurar marcos na paisagem para poder orientar-me direito e corrigir meu rumo, quando vi um indiozinho cuidando de umas cabras. Ele tinha talvez seus sete anos e estava vestido como eu me vestia quando era da idade dele. De fato, ele me lembrava a mim mesmo cuidando das duas cabras de meu pai.

    Fiquei olhando para ele um pouco; o menino estava falando sozinho, assim como eu costumava fazer, e depois falava com as cabras. Do que eu sabia de cuidar de cabras, ele era bom naquilo. Era meticuloso e cuidadoso. Não as mimava, mas também não era malvado com elas.

    Resolvi chamá-lo. Quando falei com ele em voz alta, deu um salto e fugiu para uma pedra, espiando para mim por detrás das pedras. Parecia estar pronto para fugir à toda. Gostei dele. Parecia estar com medo, mas ainda encontrou tempo para conduzir suas cabras para longe de mim.

    Falei muito tempo com ele; disse que estava perdido e que não sabia o caminho para Ixtlan. Perguntei o nome do lugar em que estávamos e ele disse que era o lugar que eu pensava que fosse. Isso me deixou muito contente. Vi que não estava mais perdido e pensei no poder que meu aliado tinha, para transportar meu corpo assim tão longe num piscar de olhos.

    Agradeci ao menino e comecei a me afastar. Ele saiu calmamente de seu esconderijo e conduziu suas cabras para uma trilha quase invisível. A trilha parecia levar para o vale. Chamei o menino e ele não fugiu. Caminhei para junto dele e ele pulou para dentro de uma moita, quando me aproximei demais. Elogiei-o por ser tão cauteloso e comecei a fazer mais perguntas: “Aonde leva essa trilha?”, perguntei. “Lá embaixo”, disse ele. “Onde você mora?” “Lá embaixo. ” “Há muitas casas lá embaixo?” ‘Não, só uma. ” “Onde ficam as outras casas?” O menino apontou para o outro lado do vale com indiferença, como fazem os meninos da idade dele. Depois, começou a descer a trilha com suas cabras. “Espere”, disse eu ao menino. “Estou muito cansado e com fome. Leve-me até onde está sua família.”
    “Não tenho família”, respondeu o garoto, e isso foi um choque para mim. Não sei por que, mas a voz dele me fez hesitar. O menino, vendo minha hesitação, parou e virou-se para mim. “Não há ninguém em minha casa”, disse ele. “Meu tio foi embora e a mulher dele foi para os campos. Tenho muita comida. Muita. Venha comigo. ”

    “Eu quase fiquei triste. O menino também era um fantasma. O tom de voz e sua ansiedade o denunciaram. Os fantasmas estavam ali para me pegar mas eu não tinha medo. Eu ainda estava dormente do meu encontro com o aliado. Queria ficar zangado com o aliado ou os fantasmas, mas não conseguia zangar-me como antes e’ desisti. Depois, quis ficar triste, pois gostei daquele menininho, mas não consegui. Então, desisti disso também.

    “De repente, compreendi que tinha um aliado e que não havia nada que os fantasmas me pudessem fazer. Acompanhei o menino pela trilha. Outros fantasmas apareciam depressa e tentavam fazer-me cair nos precipícios, mas minha vontade era mais forte do que eles. Devem ter sentido isso, pois pararam de me atormentar. Depois de algum tempo, simplesmente se punham a meu lado; de vez em quando, algum deles saltava em meu caminho, mas eu os parava com minha vontade. E então eles deixaram de me aborrecer de todo.”

    Dom Genaro calou-se e ficou quieto por muito tempo. Dom Juan olhou para mim.

    — O que aconteceu depois, Dom Genaro? — perguntei.

    — Continuei a andar — respondeu ele.
    Parecia que ele tinha acabado a história e não havia nada que quisesse acrescentar.

    Perguntei-lhe por que o fato de lhe oferecerem comida era um indício de que eram fantasmas.

    Não respondeu. Sondei-o mais e perguntei se era costume entre os índios mazatecas negarem comida, ou se preocuparem muito com matéria de comida.

    Respondeu que o tom da voz deles, sua ansiedade para atraí-lo e a maneira de os fantasmas falarem a respeito de comida eram os indícios; e que ele sabia disso porque seu aliado o estava ajudando. Falou que, sozinho, nunca teria notado aquelas peculiaridades.

    — Aqueles fantasmas eram aliados, Dom Genaro? — perguntei.

    — Não. Eram pessoas.

    — Pessoas? Mas você disse que eram fantasmas.

    — Disse que não eram mais reais. Depois de meu encontro com o aliado, nada mais era real.

    Ficamos calados por muito tempo.
    — Qual foi o resultado final dessa experiência, Dom Genaro?

    — perguntei,

    — Resultado final?

    — Quero dizer, você chegou a Ixtlan? Os dois riram ao mesmo tempo.

    — Então para você é esse o resultado final — observou Dom Juan. — Vamos dizer assim, então. Não houve resultado final na viagem de Genaro. Nunca haverá um resultado final. Genaro ainda está a caminho de Ixtlan!

    Trecho do livro “Viagem a Ixtlan”, Carlos Castaneda.

    • Que os fantasmas fiquem de lado mesmo… o caminho certo só nós mesmos podemos saber, na hora em que deve ser revelado. E se não for revelado, que a viagem seja sempre enriquecedora.

    • Esse trecho do livro é ótimo. Puro reconhecimento.
      Quando eu li, há tempos, “eu quase fiquei triste”, mas não foi possível.

      O caminho é para frente e…
      “Já não tem como voltar
      Se viver é se perder
      Deixa o vento me levar”

  3. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que ás vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.

    Clarice Lispector in Água Viva

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