O SALTO

 

A noite esparramou-se toda
Luzes acendem e logo se apagam
Olhos se fecham e outros olhos se abrem
Um rio adormece por entre as nossas camas
E a sua correnteza sonha com a vastidão do mar
Mas no meio do caminho existe um abismo
Um salto de água claras no escuro profundo
As gotas caem, uma por uma
Saciando a sede de um ser desconhecido
A correnteza mal sente o impacto
Existe algo que amortece mas que também prende
Lá embaixo o movimento vai desacelerando
Torna-se mais lama do que rio
Mas a correnteza ainda sonha com o infinito
Então ela força passagem
E oito pétalas brancas emergem da lama e se abrem
Uma flor que se oferece para todos e para ninguém
Uma flor que contém em si todos os rios
Todos os mares e todos os mundos
Aos poucos a noite vai escorregando pelas bordas
E ao leste há um pressentimento de algo que nasce
Aos poucos nós vamos deixando nossas camas
Como gotas que caem, uma por uma
Saciando a sede do dia que não nos impede de sentir
O perfume da correnteza que nos trouxe até aqui.

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~ por jeronimooo em fevereiro 26, 2010.

6 Respostas to “O SALTO”

  1. “O rio corre para o mar e a cachoeira é um salto no meio da caminho. Bem vindo à cachoeira da flor de lótus.”

  2. Assim como a caichoeira é um salto no meio da trajetória do rio, a flor de lótus, dá um salto para sair da lama para poder florescer.

  3. Que a correnteza continue rumo ao infinito!

  4. Meu amor seu
    Me fez acreditar no passado e no futuro
    Para além da morte minha
    Mas nada poderia me aprisionar mais
    A ponto de entender que a malha de meu sangue
    Que o tecido sanguineo de minhas veias
    São
    A minha própria prisão

    Que posso diante da fraqueza de minha decisão
    De minha forma
    Fazer mais do que me consolar
    Me sublimar
    Com minha paixão!
    Paixão que me consome como um espelho de decadência especular
    Espetacular
    Poderoso
    Fluente

    Só me restaram os amigos de decadência e dor…
    Então peço, a você amigo,
    Peço sua ajuda
    Peço sua compreensão
    Por favor, dê-me água
    Tenho sede
    Para além de minha falta de ar….

    Seja generoso,
    Afogue-me!

    • Não cessaremos nunca de explorar
      E o fim de toda nossa exploração
      Será chegar ao ponto de partida
      E o lugar reconhecer ainda
      Como da primeira vez que o vimos.
      Pela desconhecida, relembrada porta
      Quando o último palmo de terra
      Deixado a nós por descobrir
      For aquilo que era o princípio.
      Nas vertentes do mais longo rio
      A voz da cascata escondida
      E as crianças na macieira
      Não percebidas porque não buscadas
      Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
      Entre duas ondas do mar.
      Depressa agora, aqui, agora, sempre
      – Uma condição de absoluta simplicidade
      (Cujo custo é nada menos que tudo)
      E tudo irá bem e toda
      Sorte de coisa irá bem
      Quando as línguas de flama estiverem
      Enrodilhadas no coroado nó de fogo
      E o fogo e a rosa forem um.

      (trecho traduzido de “Little Gidding”, de T.S. Eliot).

  5. Carregando esse perfume dentro do peito, seguimos todos os dias, até voltar à correnteza…

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