ÁGUA PURA

 

Olá, minha querida
As coisas estão difíceis por aqui
As pessoas acham que somos balas perdidas
E todos fogem correndo uns dos outros
E acabam trombando uns nos outros
E então eles atiram uns nos outros
Sim, é triste
Mas com o tempo voce se acostuma
Enquanto isso eu fico aqui encafifado
Nessa fila de abate que chamamos de vida
Desembaraçando filetes de sol da janela
Para poder seguir em frente com dignidade
E voce sabe que só digo isso por capricho
Porque no fundo, no fundo
Já estou no fundo do poço

“Não, voce não está…”

No fundo
Bem mais fundo
Onde o limite abre passagem
Uma voz sussurra:
“Beba dessa água”

Um tremor percorre o meu corpo
Todas as fissuras se rompem
E a fonte jorra
Pura
Selvagem
Invencível

E agora todos se abrigam da chuva
E a cidade submerge em silencio…

O oceano sonha com o deserto
Voce mergulha
E traz nos olhos as cores que deixei quebrar
O vento desperta ondas sempre maiores
Voce sorri
E desamarra as ancoras que aceitei vestir
Bebo outro gole dessa água
E pela primeira vez
Coloco-me de pé com minhas próprias pernas
Agora posso
Enfim
Começar a terminar

Enquanto isso
Eles continuam se trombando nos abrigos
E a cidade submerge em silencio…

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~ por jeronimooo em fevereiro 7, 2010.

8 Respostas to “ÁGUA PURA”

  1. hum, sobre fundo de pocos, me lembra que tenho que transcrever um trecho de um livro de Murakami sobre pocos, e sobre ficar em fundo de pocos. E sobre aguas…cara, voce tem que ler esse livro, esse livro foi escrito para voce, rs.

  2. http://www.goodreads.com/book/show/4597289.Cr_nica_do_P_ssaro_de_Corda

    Esse eh o livro, leia, ele foi escrito para voce.

  3. Intenso, triste, alegre, lindo! Como a vida… como tudo o que nós vivemos!

  4. “Este não é um lugar para os fracos

    Não é um lugar para os que perdem a cabeça

    Nem um lugar para ficar para trás

    Levanta teu coração cansado e faz um último esforço”

    “THE WEARY KIND” (tema da música do filme CRAZY HEART)

  5. Eu que estou no fundo do poço,
    que vejo o poço como fonte mãe de toda a cidade,
    que sei que a cidade afunda
    enquanto os homens se acreditam abrigados,
    que percorro os túneis abaixo de caminhos impossíveis,
    que revejo meus sonhos dentro desse sonho árido,
    bebo a água que cai de meus olhos.
    A natureza de minha tristeza,
    de minha cegueira,
    são os sais que dão sabaor a água.
    Todo dia bebo essa água
    que de tão pura é capaz de matar.
    Enquanto isso me vejo as voltas com estes filetes de sol,
    todos embaraçados,
    procurando algum que não se parta ao meu toque,
    para adoçar esta minha fonte d´água
    e gerar um metal novo,
    vapor que me permita repirar.

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